S. Maria Madalena (Festa)

A pedido do Papa Francisco, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos emitiu um novo decreto, datado de 3 de Junho de 2016, relativo à celebração da Santa Maria Madalena, até agora celebrada como memória obrigatória (MO), e que passará a ser celebrada no Calendário Romano Geral com o grau de Festa.

Prot. N. 257/16
DECRETO

A Igreja, tanto no Ocidente como no Oriente, teve sempre em grande consideração e louvor Santa Maria Madalena, celebrando-a de diversos modos, pois ela foi a primeira testemunha evangelizadora da ressurreição do Senhor.

Nos nossos dias, a Igreja é chamada a reflectir aprofundadamente sobre a dignidade da mulher, sobre a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina. Assim, parece conveniente, que o exemplo de Santa Maria Madalena, seja proposto aos fiéis de modo mais adaptado. De facto, esta mulher, conhecida como aquela que amou tanto Cristo e que foi amada por Ele; e que São Gregório Magno chamou de “testemunha da misericórdia” e São Tomas de Aquino de “apóstola dos apóstolos”; pode ser considerada pelos fiéis de hoje como modelo do ministério da mulher na Igreja.
Por isso, o Sumo Pontífice Francisco estabeleceu que, a partir de agora, a celebração de Santa Maria Madalena seja inscrita no Calendário Romano Geral, com o grau de festa em vez do de memória, como até agora.

O novo grau celebrativo implica algumas variações para o dia em que está inscrita a própria celebração, assim como a partir de agora, para os textos do Missal e da Liturgia das Horas a adoptar, isto é:
a) o dia dedicado à celebração de Santa Maria Madalena permanece o mesmo, como aparece no Calendário Romano, isto é, dia 22 de Julho;
b) os textos a usar na Missa e no Ofício Divino, permanecem os mesmos que já estão no Missal e na Liturgia das Horas do respectivo dia; acrescentando no Missal o prefácio próprio, que segue em anexo a este decreto. É competência da Conferência Episcopal traduzir o texto do prefácio em língua vernácula; de tal modo que, depois da aprovação da Santa Sé, possa ser usado e inserido a seu tempo na próxima reedição do Missal Romano.

Nos lugares aonde Santa Maria Madalena, segundo o direito particular, é legitimamente celebrada num outro dia e com um grau diferente, continua a ser celebrada nesse mesmo dia e com o mesmo grau.
Nada obste em contrário.

Sede da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, dia 3 de Junho de 2016, solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Robertus Card. SARAH
Prefeito

Arturus ROCHE
Arcebispo Secretário



“APÓSTOLA DOS APÓSTOLOS”

Por desejo expresso do Santo Padre Francisco, a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos publicou um novo decreto, com a data de 3 de Junho de 2016, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, com o qual a celebração de Santa Maria Madalena, até agora memória obrigatória, será elevada ao grau de festa no Calendário Romano Geral.

A decisão inscreve-se no actual contexto eclesial, que pede uma reflexão mais profunda sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina. Foi São João Paulo II aquele que dedicou grande atenção, não somente à importância das mulheres na missão de Cristo e da Igreja, mas também, e com especial relevo, ao peculiar papel de Maria Madalena como a primeira a encontrar Cristo ressuscitado e a primeira mensageira a anunciar aos apóstolos a ressurreição do Senhor (cf. Mulieris dignitatem, n. 16). Esta importância continua hoje na Igreja – manifesta-o o actual empenho de uma nova evangelização – que deseja acolher, sem nenhuma distinção, homens e mulheres de qualquer raça, povo, língua ou nação (cf. Ap 5, 9); para anunciar-lhes a Boa Nova do Evangelho de Jesus Cristo, acompanhá-los na sua peregrinação sobre a terra e a oferecer-lhes as maravilhas da salvação de Deus. Santa Maria Madalena é o exemplo de verdadeira e autêntica evangelizadora, isto é, de uma ‘evangelista’ que anuncia a mensagem alegre e central da Páscoa (cf. Colecta do dia 22 de Julho e novo Prefácio).

O Santo Padre Francisco tomou esta decisão exatamente no contexto do Jubileu da Misericórdia para significar a importância desta mulher, que mostrou um grande amor a Cristo e Cristo por ela, como afirmou Rabano Mauro falando dela (“dilectrix Christi et a Christo plurimum dilecta”: De vitae beatae Mariae Magdalenae, Prologus) e Santo Anselmo de Canterbury (“electa dilectrix et dilecta electrix Dei”: Oratio LXXIII ad sanctam Mariam Magdalenam). A tradição eclesial no Ocidente, sobretudo depois de São Gregório Magno, identifica na mesma pessoa Maria Madalena, a mulher que versou perfume na casa de Simão, o fariseu, e a irmã de Lázaro e a Marta. Esta interpretação manteve-se e teve influência nos autores eclesiásticos ocidentais, assim como na arte cristã e nos textos litúrgicos relativos a esta Santa. Os Bolandistas relevaram insistentemente o problema da identificação das três mulheres e prepararam o caminho para a reforma litúrgica do Calendário Romano. Com a reforma conciliar, os textos do Missal Romano, da Liturgia das Horas e do Martirológio Romano referem-se a Maria de Magdala. De facto, Maria Madalena fez parte do grupo dos discípulos de Jesus, seguindo-O até aos pés da cruz e, no jardim onde se encontrava o sepulcro, foi a primeira “testis divinae misericordiae” (Gregório Magno, XL Hom. In Evangelia, lib. II, Hom. 25, 10). O Evangelho de João conta que Maria Madalena chorava, pois não tinha encontrado o corpo do Senhor (cf. Jo 20, 11), e Jesus teve misericórdia dela fazendo-se reconhecer como Mestre transformando as suas lágrimas em alegria pascal.

Aproveitando esta oportuna circunstância, desejo destacar duas ideias inerentes aos textos bíblicos e litúrgicos da nova festa que podem ajudar hoje a perceber melhor a importância desta Santa mulher.

Por um lado, tem a honra de ser a “prima testis” da ressurreição do Senhor (Hymnus, Ad Laudes matutinas); a primeira a ver o sepulcro vazio e a primeira a ouvir a verdade da sua ressurreição. Cristo tem uma especial consideração e misericórdia por esta mulher, a qual manifesta o seu amor para com Ele, procurando-O no jardim com angústia e sofrimento, com “lacrimas humilitatis”, como diz Santo Anselmo na oração citada. A este propósito, desejo assinalar o contraste entre as duas mulheres presentes no jardim do paraíso e no jardim da ressurreição. A primeira difunde a morte onde estava a vida; a segunda anunciou a Vida a partir de um sepulcro - lugar de morte. Isto mesmo o faz observar ainda São Gregório Magno: “Quia in paradiso mulier viro propinavit mortem, a sepulcro mulier viris annuntiat vitam” (XL Hom. In Evangelia, lib. II, Hom. 25). Ainda mais, é mesmo no jardim da ressurreição que o Senhor diz a Maria Madalena: “Noli me tangere”. É um convite dirigido não somente a Maria, mas a toda a Igreja, para entrar numa experiência de fé que supera toda a apropriação materialista e compreensão humana do mistério divino. Tem uma abrangência eclesial! É uma boa lição para cada discípulo de Jesus: não buscar seguranças humanas e títulos mundanos, mas a fé em Cristo Vivo e Ressuscitado!

Por outro lado, exactamente porque foi testemunha ocular de Cristo Ressuscitado, foi também, a primeira a dar testemunho diante dos apóstolos. Cumprindo o mandato do ressuscitado: “Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes… Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: «Vi o Senhor». E contou o que Ele lhe tinha dito” (Jo 20, 17-18). Deste modo ela torna-se, como já referimos, ‘evangelista’, ou seja, mensageira que anuncia a Boa Nova da ressurreição do Senhor; ou ainda como disse Rabano Mauro e São Tomás de Aquino, “apóstola dos apóstolos”; pois anuncia aos apóstolos aquilo que, por seu lado, eles anunciam a todo o mundo (cf. Rabano Mauro, De vitae beatae Mariae Magdalenae, c. XXVII; São Tomas de Aquino, In Ioannem Evangelistam Expositio, c. XX, L. III, 6). Com razão o Doutor Angélico usa este termo aplicando-o a Maria Madalena; ela é testemunha de Cristo Ressuscitado e anuncia a mensagem da ressurreição do Senhor, como os outros apóstolos. Por isso, é mais apropriado que a celebração litúrgica desta mulher tenha o mesmo grau de festa que as celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral, revelando a especial missão desta mulher, que é exemplo e modelo para cada mulher na Igreja.

+ Artur Roche
Arcebispo Secretário da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos



[Download do Prefácio]

PREFÁCIO Apóstola dos Apóstolos
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.

Pai omnipotente e rico de misericórdia,
é verdadeiramente digno e justo,
nosso dever e salvação,
louvar-Vos sempre e em toda a parte
por Cristo Nosso Senhor.

Aparecendo Jesus a Maria Madalena no jardim,
Ela que tanto o amara quando era vivo,
viu-O morrer na cruz,
procurou-O no sepulcro;
e foi a primeira a adorá-l’O depois de ressuscitar dos mortos.

Diante dos Apóstolos foi honrada com a missão do apostolado,
para que o alegre anúncio da vida nova
chegasse até aos confins da terra.

Por isso, com todos os Anjos e Santos,
nós Vos louvamos, dizendo (cantando) com alegria:

Santo, Santo, Santo,
Senhor Deus do universo.
O céu e a terra proclamam a vossa glória.
Hossana nas alturas.
Bendito O que vem em nome do Senhor.
Hossana nas alturas.

2016-06-10 00:00:00