Espiritualidade do Advento

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1.    Ano civil e ano litúrgico

O ano litúrgico tem exactamente a mesma duração do ano civil: 365 ou 366 dias. Mas um e outro são diferentes na sua organização…, e mais ainda nas respectivas finalidades. Acerca do primeiro escreveu Paulo VI: «A celebração do ano litúrgico tem valor e eficácia sacramental para o progresso da vida cristã. É isto mesmo que Nós próprio sentimos e professamos» (“Motu próprio” que aprovou as “Normas gerais sobre o ano litúrgico e o novo calendário romano”).

O ano civil divide-se em estações (Primavera, Verão Outono e Inverno), em meses (Janeiro, Fevereiro… Dezembro), e em dias de cada mês (dia 1 de…, dia 2 de…, dia 3 de… dia 31 de…). Actualmente, o ano civil tem o seu início no dia 1 de Janeiro e o seu termo a 31 de Dezembro. Mas já começou e acabou noutros dias. Os anteriores eram 1 de Março (para começar) e 28 ou 29 de Fevereiro (para terminar). Foi o imperador romano Júlio César que fixou as datas actuais para começo e fim de cada ano. A palavra “Primavera” (ou seja, primeira estação do ano) é um dos indícios do antigo começo do ano civil e os 28 ou 29 dias do mês de Fevereiro o outro. 
O ano litúrgico divide-se em cinco tempos (Tempo do Advento, Tempo do Natal, Tempo da Quaresma, Tempo Pascal e Tempo Comum), em semanas de cada um desses tempos (I semana do Advento, I semana da Quaresma…, I semana da Páscoa…, I semana do Tempo Comum…, XXXIV semana do Tempo Comum), e em dias da semana (Domingo e dias feriais: segunda-feira, terça-feira…, sábado). 
Os dias feriais são os seis dias de trabalho ou de lazer, que vão de segunda-feira a sábado. Mas cada semana começa pelo domingo, dia escolhido pelos cristãos para seu dia de festa, muito antes de ser dia de descanso. Porque fizeram eles tal escolha? Apenas e só porque Deus o escolhera para dia da Ressurreição de Jesus, seu Filho, e este, por sua vez, o elegera para as suas duas primeiras aparições, como se lê no Evangelho de S. João: «Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» (Jo 20, 19); «Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!» (Jo 20, 26). A expressão oito dias depois chama a atenção dos leitores para o facto da segunda aparição do ressuscitado ter acontecido precisamente uma semana após a primeira. É essa a razão pela qual as Normas gerais do ano litúrgico se exprimem assim: «No primeiro dia da semana, chamado “dia do Senhor” ou “domingo”, a Igreja, por tradição apostólica que vem do próprio dia da Ressurreição de Cristo, celebra o mistério pascal. Por isso o domingo deve considerar-se como o dia de festa primordial» (NUALC 4). 


2.    Breve reflexão sobre o Advento

O que é o Advento ou mais precisamente, o Tempo do Advento? É o primeiro dos cinco tempos do ano litúrgico. Com ele, a Igreja católica inicia, em cada ano, um novo itinerário de fé. Constituem-no os quatro domingos que antecedem o Natal do Senhor. Digo quatro domingos e não quatro semanas, porque as semanas do Advento podem ser apenas três ou quatro incompletas. 
Donde vem a importância que a liturgia dedica ao Advento? Curiosamente, essa importância não tem origem no próprio Tempo em si, mas em dois acontecimentos que não fazem parte do Advento. Um deles já veio enquanto o outro ainda está para chegar. Que acontecimentos são esses? O primeiro, aquele que já aconteceu, foi o Nascimento do Filho de Deus em Belém, o Natal do Senhor. Volto a citar o documento já referido: «O Tempo do Advento… é tempo de preparação para a solenidade do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus aos homens» (NUALC 39). 
O segundo acontecimento, aquele que ainda esperamos, vem indicado imediatamente a seguir: «O Advento é, simultaneamente, o tempo em que, comemorando esta primeira vinda, o nosso espírito se dirige para a expectativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos. Por estes dois motivos, o Advento apresenta-se-nos como um tempo de piedosa e alegre expectativa» (NUALC 39).
A expressão piedosa… expectativa não pode passar despercebida a quem lê o texto. Ela recorda que o Advento não é, em primeiro lugar, um tempo de muitas realizações humanamente louváveis, de manifestações folclóricas excelentes, mas sim de intimidade espiritual com Deus. Os dicionários definem piedade como amor e respeito pelas coisas religiosas. Por outro lado, o Advento é tempo de preparação para duas vindas do Senhor, para dois Natais: o de Belém, que já aconteceu e aquele que ainda esperamos, o do fim dos tempos.
A liturgia não trata o Advento como se as suas quatro semanas já fossem Natal, mas como preparação para algo que vem depois delas. Isto deve ter implicações na catequese das crianças. Há que falar-lhes da festa que está para vir e propor-lhes actividades que as ajudem a preparar o Natal de Jesus. Mas o Natal é só no dia 25 de Dezembro. Por isso, mesmo que venham a fazer-se “festas de Natal” antecipadas, não ponham o Menino no Presépio. Ponham lá Maria, José, o burro, a vaca, os anjos, os pastores, os reis magos, etc. Mas não ponham lá a imagem do Menino. E digam às crianças porquê. Bem sei que isto é difícil, porque à nossa volta, e ainda em pleno Advento, tudo antecipa o Natal o mais possível, numa ânsia de vender coisas e criar pretenso ambiente natalício. A liturgia é que deve ser a escola da catequese. Deixemos que seja ela a ensinar a adultos e crianças o que é o Natal. É ela que o sabe fazer com mais beleza e verdade.
Deixem, catequistas, que vos diga uma palavra que teima em saltar-me da boca: vivam a liturgia, frequentem a liturgia, deixem-se conduzir por ela, rezem o que ela vos propõe, leiam e ouçam ler o que ela proclama nas leituras, aprofundem-na, amem-na. A liturgia, disse o Papa S. Pio X, é a catequese mais universal do povo de Deus. Prestem atenção a quem disse esta frase. Eu apenas me limitei a citá-la. Quem a escreveu foi um Papa, 50 anos antes do Concílio Vaticano II, num tempo em que a liturgia não tinha ainda sido reformada. Um Papa não é propriamente, como sabeis, um vendedor de palavras. Jesus disse a Pedro, o primeiro Papa: «Eu roguei por ti, para que a tua fé não desapareça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos.» (Lc 22, 32).


3.    A figura central do Advento

Há figuras que são centrais, no Advento. Uma delas é a Virgem Maria, porque viveu profundamente o espírito desse tempo de espera do Messias prometido… e simultaneamente de expectativa do que Deus tinha para lhe revelar no dia a dia da sua própria vida.
Maria pertencia àquela parte do povo de Israel que, antes da vinda de Jesus, esperava com todo o coração essa vinda. Pelas palavras e pelos gestos narrados no Evangelho, podemos ver como Ela vivia realmente imersa nas palavras dos Profetas que anunciavam a vinda do Messias do Senhor. Contudo, não podia imaginar como iria realizar-se tal vinda, mesmo quando já trazia o seu Filho no seio. Foi só no dia de Natal que a Mãe ficou a conhecer os planos misteriosos de Deus sobre esse nascimento. E nada soube do muito mais que estava para acontecer. Só no dia da Cruz descobriu o sentido das palavras que Simeão lhe dirigiu, no dia da apresentação do Menino no Templo: «Uma espada trespassará a tua alma» (Lc 2, 35).


4.    Espiritualidade do Advento

Porque razão sentiu a liturgia necessidade duma preparação mais adequada para a celebração dos mistérios da primeira vinda de Cristo no Natal, e da sua última vinda no fim dos tempos?
As respostas a estas duas perguntas podem esclarecer-nos sobre o que é afinal a espiritualidade do Advento.

Vinde, Senhor Jesus

Sabemos que Cristo já veio. Aquele que os profetas anunciaram e desejaram ver fez-Se carne no seio de Maria, nasceu em Belém, foi contemplado pelos homens. Mas voltou para o Pai, onde intercede continuamente por nós.
Porém a Igreja acredita que os fiéis de todos os tempos têm necessidade de fazer experiência idêntica à dos filhos de Israel que viveram antes da vinda do Messias. Daí a sua proposta, no início de cada ano litúrgico, sintetizada na frase tantas vezes repetida na liturgia do Advento: «Maranatá, Vinde, Senhor Jesus, Maranatá» (Ap 22, 20). 
Tempo do Advento é tempo de desejar que Jesus venha à minha vida, à tua vida, à vida do mundo, às relações de todos os tipos entre os homens e mulheres do universo, onde quer que vivam, o que quer que façam, quem quer que sejam.

Vinde, Espírito Santo

No princípio, quando Deus criou o céu e a terra, o Espírito pairava sobre as águas e nelas infundiu a força criadora da vida (cf. Gen 1, 2). Na hora da Anunciação do Anjo, foi ainda o Espírito que gerou, no ventre da Virgem Maria, o Filho Unigénito de Deus, dando início aos novos céus e à nova terra (cf. Lc 1, 35).
No princípio, o Espírito precedeu a vida; na Anunciação precedeu o Verbo. O Espírito de Deus que esteve na origem da primeira vinda de Cristo, quer ser invocado a fim de preparar o coração da humanidade para a segunda vinda.
O Advento é, pois, tempo de clamar: “Vinde, Espírito Santo”, pois só o Espírito é capaz de preparar a Igreja e o mundo para a vinda defi­nitiva do Filho de Deus, e simultaneamente o coração de cada homem e de cada mulher para neles se ir completando a obra da redenção que teve início na Encarnação do Verbo: «O Espírito do Senhor, encheu a terra inteira. Aleluia, aleluia, aleluia».

Viver em clima de Advento, com Maria

Na Bíblia, os pobres de Javé são aqueles filhos e filhas de Israel que, acreditaram na promessa dum Salvador, que suplicaram a Deus a vinda desse dia, e souberam esperar o Messias prometido. Maria ocupa, entre esses pobres, o primeiro lugar.
O Advento é, mais do que nenhum outro, o tempo dos novos pobres de Javé, pois é no Advento que a Igreja pede com maior insistência a vinda da salvação: Desça o orvalho do alto dos Céus e as nuvens chovam o Justo. Abra-se a terra e germine o Salvador, felicíssima tradução do célebre: «Rorate, coeli, desuper, et nubes pluant iustum». Ninguém cantou como Maria este cântico, mesmo antes da música que hoje cantamos ter sido composta. Não admira, por isso, que Ele ocupe um lugar de tanto relevo na liturgia do Advento.
A presença de Maria na liturgia do Advento tem um profundo sentido de exemplaridade. Assim como Deus pôs os olhos na humildade da sua serva, do mesmo modo os põe em cada crente que a imita. A exemplaridade de Maria há-de ser ponto de referência para a Igreja e para cada crente que, em continuidade com ela, tem a missão de preparar o mundo para a última vinda de Cristo Salvador.
Na aurora dos novos tempos foi em Maria que a promessa feita por Deus aos patriarcas e aos profetas se transformou em Dom. Nos nossos, que são os últimos, há-de ser através de cada homem e de cada mulher que vivam à maneira de Maria, que Deus apressará a última vinda do seu Filho, e nos dará a graça de alcançarmos a herança do céu, onde, com a criação inteira, cantaremos eternamente a glória do Senhor.


5.    Viver um Advento cristão

O Tempo do Advento começa nos últimos dias de Novembro ou nos primeiros dias de Dezembro. Porque antecede o Natal e o fim do ano civil, é um período muito importante para a manifestação dos mais nobres sentimentos da pessoa humana. Que o digam as inumeráveis festas de carácter social que nele acontecem, conhecidas pelo nome de “natais”: natal dos hospitais, natal da TV, natal dos trabalhadores da empresa X.
Mas a visão cristã do Advento vai mais longe do que aquele que emerge dessas festas pré-natalícias.  Ela parte da actividade profética, nomeadamente de João Baptista, e dela deduz que o Advento tem, como finalidade, preparar as comunidades para uma celebração cristã do Natal e lembrar também que a última vinda do Senhor está agora mais próxima do que no momento em que abraçámos a fé. A visão cristã do Advento faz de Deus e não do homem a medida de todas as coisas. Trata-se duma forma de olhar as coisas e o mundo que contrasta com a visão que a cultura, a política e o social têm dessas mesmas realidades, e que é incómoda. Por isso, a liturgia do Advento interpela fortemente os que a frequentam, apontando-lhes como objectivo final a última vinda de Cristo, e como metas inter­médias as manifestações de solidariedade humana, a viver em jubilosa esperança, como sinais precursores do Natal de Belém.
A visão cristã do Advento manifesta-se também nas celebrações do sacramento da Penitência, fazendo ressaltar, através da atitude humanamente acolhe­dora e fraterna dos ministros, a inigualável humanidade de Deus que se compadece de todas as fraquezas dos homens, e cujo perdão é imen­samente maior do que os pecados dos homens e mulheres de todos os tempos.
Os cristãos, na sua vida quotidiana, são convidados a andar atentos às tentativas do poder económico que pretende transformar o Advento num período de louco consumismo, verdadeiro atentado à dignidade dos mais pobres e à igualdade e fraternidade que o Natal proclama. 
Se te reconheces como discípulo de Cristo, manifesta o teu desacordo relativamente aos modelos culturais que os meios de comunicação criam e impõem quase à força, contrapondo-lhes o modo de viver, de pensar e de sentir que se aprendem nas páginas do Evangelho, onde se narra o nascimento de Cristo e se contempla a simplicidade e pobreza do primeiro presépio: uma gruta, uma manjedoira, um Menino, que sendo rico Se fez pobre para ensinar aos homens a mais bela das lições: Felizes os pobres que o são no seu íntimo, porque deles é o reino dos céus.
Convido-te a seres candidato a mestre de sabedoria evangélica, dizendo estas coisas com palavras mas principalmente com a vida. Garanto-te que não tardarás a ver discípulos e amigos que te acompanhem.
O Advento e a sua mensagem têm força para nos levar até ao coração do mistério da Encarnação, mistério que fez nascer Deus entre os homens e continua a ser capaz de conduzir os homens até Deus.


José de Leão Cordeiro


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2016-11-25 00:00:00