Homilia na 30.ª Peregrinação Nacional dos Acólitos

Na 30.ª Peregrinação Nacional dos Acólitos, realizada neste dia, 1 de maio de 2026, ao Santuário de Fátima, D. José Cordeiro convidou os acólitos de todo o país a assumirem-se como verdadeiros “servidores do silêncio”, inspirados no testemunho de são José. Destacou o silêncio como atitude interior que dá sentido ao serviço litúrgico, apelando a um ministério vivido com profundidade, oração e autenticidade.

Servidores do Silêncio
Homilia da 30ª Peregrinação Nacional dos Acólitos
Santuário de Fátima – 01 de maio de 2026

1. Palavras e gestos eloquentes: o silêncio
Queridos acólitos e acólitas de Portugal, há 30 anos que peregrinamos ao Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, quase sempre neste dia 1 de maio, como acontece hoje, em que celebramos a memória litúrgica de São José, operário.

Todos os anos, a preparação desta Peregrinação, quer da parte da equipa nacional, quer de cada um de nós e dos nossos grupos paroquiais e/ou diocesanos, implica sempre muita azáfama: aspetos logísticos e de organização a considerar atentamente, dinâmicas a implementar, divulgação para cativar, celebrações a preparar... enfim, um sem número de ações a realizar, para que a nossa Peregrinação possa acontecer neste ambiente de festa e de alegria. Talvez em todo este trabalho queiramos ser semelhantes a São José, que, como operário, no exercício do seu trabalho de carpinteiro, certamente tudo fazia para cumprir bem a sua missão, não se poupando a todos os esforços e canseiras, para realizar bem, com qualidade e sucesso o seu labor. Nestas ações criativas, que exigem dedicação e esforço, trabalho e empenho, podemos querer também assemelhar-nos ao Criador, que faz o ser humano à sua imagem e semelhança, que o faz dominar sobre as obras criadas, que faz crescer e multiplicar, que reconhece a bondade e a beleza da ação realizada (cf. Gn 1, 26-31). Deste modo, percebemos que o resultado dos nossos trabalhos não é apenas altruísmo, mas empenho sério de sermos colaboradores na criatividade divina, como expressão do caminho de santidade que somos chamados a trilhar.

Mas há também uma imagem de São José que parece contrastar com todo este movimento de palavras e ações criativas: certamente todos conhecemos a representação escultórica de São José a dormir. E poder-nos-íamos questionar: um santo a dormir? Não deveria um santo estar sempre atento, ser integralmente diligente e desperto para acolher a ação e a palavra divinas e poder assim cumprir sempre a vontade de Deus? Além disso, não confiamos nos santos, como em São José, para agirem em nosso favor, para atenderem as nossas súplicas e os nossos motivos de gratidão, como nossos intercessores junto de Deus? Esta imagem de São José faz-nos interrogar, para nos ajudar a compreender com mais profundidade que tudo o que fazemos não pode ficar pela exterioridade, mas que precisa de ser vivida interiormente, com inteireza. São José, o operário, provoca-nos com esta imagem a dormir, em silêncio! Esta provocação de São José ensina-nos o quão eloquente é o silêncio.


2. Os acólitos, servidores do silêncio

Os acólitos e as acólitas, inspirados em São José, são chamados a ser o silêncio incarnado, concretizado, em gestos e palavras. Tudo aquilo que dizemos e tudo o que fazemos, no exercício do ministério de acólitos, deve inspirar-se no silêncio, que não é ausência de ruído, que não é imobilismo, que não é passividade, que não é desconsideração, que não é alheamento, que não é simplesmente calar. O silêncio de São José é operativo e eloquente. Mas como?
Nós sabemos que São José é conhecido como homem do silêncio, porque são raras as referências bíblicas a seu respeito. E mais raras ainda as suas palavras e as suas obras realizadas. Mas se são raras, são também excecionais e especiais, são como pérolas. Se bem nos recordamos, na Carta Apostólica Patris corde, que o saudoso Papa Francisco escreveu sobre São José, várias eram as características deste santo silencioso, mas com um testemunho incrível. O Papa classificou São José como pai amado, pai na ternura, pai na obediência, pai no acolhimento, pai com coragem criativa, pai trabalhador e pai na sombra. Ora, todas estas atitudes revelam profundidade naquilo que São José é, na forma como vive o silêncio e no modelo que testemunha para nós e para o nosso ministério.

Todos nós, especialmente os acólitos e as acólitas, somos chamados a ser servidores do silêncio. Como podemos ser servidores do silêncio?
Em primeiro lugar, nunca devemos por o nosso serviço, por mais zeloso que seja, à frente do encontro com Jesus. Aliás, todo o nosso serviço deve ser para Jesus e em seu nome (cf. Col 3, 17). Nunca devemos ir diretamente para a sacristia para executarmos tarefas e funções, mas devemos sempre ter um momento orante de encontro com Jesus, no Sacrário, preparando-nos para O levarmos no coração durante o exercício do ministério, sobretudo na Eucaristia. Este encontro com “Jesus escondido”, como dizia São Francisco Marto, o patrono dos acólitos em Portugal, não precisa de muitas palavras, mas deve ser vivido com inteireza, colocando-nos diante d’Ele, escutando, acolhendo a Sua presença, deixando-nos inspirar para o ministério que vamos viver.

Depois, o modo como preparamos a celebração em que servimos revela também se estamos ou não habitados pelo silêncio. Se entramos e saímos na Igreja vezes sem conta, a conversar, sem inclinar ao Altar, sem genufletir ao Sacrário, se provocamos risos e brincadeiras uns aos outros, se o turíbulo é para entreter, se distraímos quem está a rezar, se vestimos a alva a correr, então estamos a servir-nos do silêncio. Por isso, temos de contrariar essa azáfama, para que os nossos gestos de inclinar, de ajoelhar, de transportar as alfaias litúrgicas, os nossos olhares e, eventualmente, alguma palavra necessária, bem como o revestimento da veste batismal (cf. Col 3, 14) sejam atitudes profundamente espirituais, vividas com inteireza, tomando consciência do que fazemos, para que em tudo revelemos a presença de Jesus (cf. Col 3, 15-16).

Por fim, também a forma como entramos e saímos do espaço litúrgico, o modo como caminhamos na celebração, os gestos com que servimos, a atenção que prestamos, a oração que fazemos a acompanhar toda a celebração manifestam o silêncio que nós incarnamos, como testemunho belo da alegria com que somos acólitos. Não se trata de cumprir exatamente e com retidão todas as rubricas. Trata-se de servir com a mesma sabedoria e graça com que Jesus ensinava os seus conterrâneos. Com a verdade do nosso serviço, muitos ficarão admirados e cativados para Jesus (cf. Mt 13, 54).

Ser servidores do silêncio é o grande milagre que Jesus pode realizar (cf. Mt 13, 58), já não na sinagoga de Nazaré, mas no espaço de culto que nós somos, no nosso corpo, que é templo do próprio Deus; na nossa comunidade, onde Ele habita; em toda a Igreja!


3. Só o silêncio basta

E assim poderíamos dizer que “só o silêncio basta”! Como testemunha São José, com o silêncio as nossas palavras e ações assemelham-se às do próprio Deus, sendo um sinal visível de verdade e inteireza de vida e do ministério de acólitos. Mas mais ainda: não nos podemos esquecer que foi no silêncio do sonho, que São José escutou, compreendeu e acolheu o projeto de Deus, para o concretizar na sua vida, fazendo com que o silêncio se tornasse realidade.
Também nos bastará o silêncio perseverante e orante, para descobrirmos ou confirmarmos o sonho de Deus para nós, isto é, a vocação a que nos chama, seja na vida matrimonial, seja como sacerdotes ou consagrados. Precisamos de fazer silêncio para descobrir como Deus nos chama a viver com abundância e em plenitude. Na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultatet sobre o chamamento à santidade no mundo atual, podemos ler que “neste silêncio, é possível discernir, à luz do Espírito, os caminhos de santidade que o Senhor nos propõe. Caso contrário, todas as nossas decisões não passarão de «decorações», que, em vez de exaltar o Evangelho na nossa vida, acabarão por o recobrir e sufocar. Para todo o discípulo, é indispensável estar com o Mestre, escutá-Lo, aprender d’Ele, aprender sempre” (Gaudete et Exsultatet, 150).
Como acólitos, também podemos viver esta nossa vocação como um caminho de santidade, não só cada um para si, mas também e sobretudo no nosso grupo de acólitos e na nossa comunidade de fé, na escola e no trabalho, na família e nos grupos de amigos. E viver a santidade como acólitos passa por atitudes tão simples... Não exerceremos o nosso serviço por vaidade, mas com simplicidade e humildade. Seremos os primeiros não a ocupar os primeiros lugares e a fazer sempre tudo, mas a ajudar outros a sentirem-se próximos de Jesus e membros ativos na comunidade cristã. Olharemos uns para os outros, sobretudo no grupo de acólitos, como irmãos e amigos. As regras que estabelecermos para o serviço da comunidade serão decididas de forma sinodal e não com autoritarismo. As ideias criativas que tivermos não serão ocasião de vanglória ou de protagonismo pessoal, mas serão sempre propostas para promover mais a glória de Deus e a santificação de todos. Como acólitos, podemos e devemos ser santos!

Estimados acólitos e acólitas, não viemos aqui para regressar a nossas casas iguais ou mais cansados, por tudo o que fizemos e conseguimos alcançar. Viemos e vamos para prosseguir o nosso caminho de discípulos de Jesus, em conversão contínua, para descobrirmos ou consolidarmos a nossa vocação e para caminharmos todos juntos no caminho da santidade.

Com a intercessão da Virgem Maria, a Senhora do Rosário de Fátima, de São José, homem operário e do silêncio, e de São Francisco Marto, nosso padroeiro, sintamo-nos impelidos a partir deste Santuário renovados, para transfigurarmos o exercício do nosso ministério de acólitos, como servidores do silêncio!

D. José Manuel Garcia Cordeiro,
Arcebispo Metropolita de Braga
e Presidente da Comissão Episcopal de Liturgia e Espiritualidade.

2026-05-01 00:00:00